Usar o Big Data para fazer uma análise investigativa substitui o Business Intelligence?

by Samira Frazão | 3 min read

Por Gustavo Jota*

Em um contexto no qual se aponta, quase que diariamente, diagnósticos de que a tecnologia está decretando a morte de muitas funções — ou, ao menos, mantendo-as vivas por aparelhos —, colocar em xeque práticas que subsidiam determinadas tecnologias é, no mínimo, curioso. No geral, dizer que uma prática pode substituir a outra soa provocativo, correto? Diferente do sugerido no título, a proposta, porém, não é apontar um modelo ideal, mas mostrar como juntos podem ser complementares para gerar inteligência de negócios e de qualquer tipo de situação, especialmente na esfera pública.

Se a inteligência usada na segurança pública é feita através de uma investigação originada por uma hipótese ou dado, a natureza da investigação no mundo corporativo pode seguir um aspecto semelhante. Nesse caso, o que irá diferenciar uma da outra é a fonte das informações e o uso delas. Enquanto a primeira tem acesso a dados muitas vezes sigilosos e que necessitam de uma intervenção judicial para serem acessados, no segmento corporativo os dados investigados são aqueles que estão acessíveis para qualquer pessoa; seja via redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, por meio de fontes de notícias ou outras que estejam disponíveis no Google, como dados socioeconômicos disponibilizados por entidades como o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE), bem como dados da própria empresa, de parceiros e terceiros. Todos dados abertos.

Os casos de maior ocorrência na área de análise investigativa corporativa se dão a partir de perguntas tais como: “Devo abrir uma empresa na localidade X?”, mas não são iniciados apenas para responder esse tipo de questão. O recurso da investigação corporativa também pode ser útil para fazer investigação de mercado alvo, concorrentes (seus parceiros, fornecedores e competidores), identificação de influenciadores locais (redes sociais, dentre outras finalidades.

Mas reunir os dados é algo complicado até para o mais perito analista de Business Intelligence e/ou cientista de dados, que precisaria de tempo e recursos, com o objetivo de identificar fontes de dados, analisar, higienizar, integrar a diversos outros processos e tecnologias inerentes ao Big Data, como por exemplo machine learning, previsão e predição, para então dar sentido aos mesmos auxiliando a responder à pergunta original. Sua natureza lida com um grande volume de conteúdo, de origens diversas, que precisa ser minerado e processado muitas vezes com o auxílio de robôs e algoritmos estruturados para essa finalidade, dentre outros.

Nesse sentido, uma tecnologia preparada para o Big Data, aliada à doutrina da inteligência pode facilitar a investigação, compreensão, decisão, execução e gerenciamento de ações. Com o apoio dela, profissionais com habilidades em dados poderão, em conjunto com outros especialistas, mapear ameaças, riscos potenciais, definir cenários, assim como planos de mitigação para os mesmos, para principalmente se antecipar às ameaças, se diferenciar e solucionar dificuldades inerentes a cada vertical de mercado. Ou seja, viabilizando consciência situacional, termo da doutrina de inteligência que é saber acerca do cenário no qual está inserido.

Um dos usos da inteligência investigativa é responder uma pergunta, geralmente a partir de uma situação que fuja do padrão, a qual irá, por sua vez, se desdobrar em uma série de outras questões com o auxílio de provas ou dados. Ter a mão informações que possam auxiliar na busca por respostas é muito útil. Porém, diferente de um filme policial, onde um detetive tem que, em alguns casos sozinho, encontrar provas, aliando pessoas e tecnologias, a inteligência investigativa é um processo integrado e interativo de investigação-análise, que evolui conforme fatos, dados, informações e outros que corroboram ou contestam hipóteses.

Já existem no mercado plataformas digitais capazes de armazenar, processar e cruzar dados, além de auxiliar analistas a estabelecer vínculos, associações e correlações, facilitando o processo de obter inteligência, por exemplo, aplicada ao desbravamento de mercado, a inteligência de mercado. Todas essas ações são preciosas em uma análise de natureza investigativa. E, embora o Business Intelligence ou Business Analytics também sejam usados para responder a uma pergunta ou hipótese — a fim de corroborar ou descartar —, utilizam diferentes metodologias da análise investigativa. Adicionalmente, a análise investigativa faz uso de ferramentas específicas para correlação e associação, como a análise de vínculos entre entidades (pessoas, bens, ativos, empresas), pelo qual o processo finalmente retorna um relatório de inteligência.

Mesmo que um aparato tecnológico seja capaz de fazer bom uso do Big Data para reunir, processar, armazenar e dar sentido a um grande volume de dados, para que a análise investigativa prossiga com sucesso é preciso desenvolver as habilidades investigativas em analistas das mais diversas áreas das corporações, a partir da doutrina de inteligência. Quando combinadas, tecnologia e prática certamente proporcionarão para seus usuários resultados mais efetivos e que irão auxiliar na tomada de decisão.

*Gustavo Jota é Gerente de Marketing de Produto na Dígitro Tecnologia.

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