Por Gabriel Arcon

Não são poucas as pessoas que acham os temas mobilidade urbana e sustentabilidade banais ou simplesmente utópicos. Outro ponto muito comum quando tratamos desse assunto é que muitos acham que essas inovações são aplicáveis apenas nas grandes metrópoles.

Ao longo dos últimos anos, inspirados em outros países e com a ajuda da evolução tecnológica que tomou conta de nossas vidas, vimos mudanças importantes acontecendo em todo país quando abordamos o termo mobilidade urbana. Apesar dos entraves e desafios, já comuns à cultura brasileira, podemos ver avanços e tendências que devem ser consolidadas nos próximos anos. Para entender um pouco melhor nosso trajeto até aqui, vou comentar alguns eventos que têm impactado a mobilidade brasileira:

Crise de combustíveis: em maio desse ano, tivemos a prova do quanto as rodovias são importantes para o desenvolvimento do país. Com a paralisação dos caminhoneiros, tivemos a pior crise de abastecimento de combustíveis, desde 1997, quando o governo acabou com o monopólio da Petrobrás, segundo a Agência Nacional do Petróleo. O que presenciamos foi uma verdadeira corrida aos postos para tentar manter um abastecimento mínimo dos carros nas ruas.

Além disso, também vimos uma grande movimentação de motoristas que simplesmente deixaram de usar gasolina, pelo alto preço, e passaram a abastecer apenas com etanol. Porém, segundo a ANP (agência Nacional do Petróleo), essa alternativa não tem sido tão viável assim, visto que os valores subiram nos postos de 17 estados brasileiros e no Distrito Federal. Somente em São Paulo, principal produtor e consumidor do etanol, à cotação média aumentou 2,39%, passando de R$2,682 para R$ 2,746 o litro.

Tais crises e oscilações nos valores, mesmo do etanol, que é considerado o mais acessível dos combustíveis, nos mostram o quanto é importante o incentivo de meios de transporte que não dependam apenas de gasolina. Criar espaços e veículos que sejam sustentáveis e que possam circular, independente de greves e paralisações, pode ser um caminho interessante para a economia de nosso país;

Compartilhamento de carros: muito provavelmente você já ouviu falar sobre Economia Compartilhada, ou seja, um conceito onde o usuário ou consumidor não precisa, necessariamente ter a posse de um bem para poder usufruir dele. Essa tendência tem sido aplicada em diversos setores da economia, como os escritório compartilhados (co-workings) em todo o mundo.

O setor de automóveis não poderia ficar de fora e tem crescido o número de adeptos dos Carros Compartilhados. Por meio de aplicativos e plataformas online, o usuário faz um simples cadastro, escolhe uma opção entre os modelos de veículos disponíveis, seleciona a forma de pagamento e pode sair dirigindo por aí. Não há gastos com IPVA, manutenção e muitos outros custos que os proprietários de carros estão acostumados, gerando comodidade e economia para a população.

O ponto crucial aqui é que essas iniciativas ainda são tímidas no Brasil e se concentram nas metrópoles, como São Paulo. Segundo estudo realizado em 2017 pela consultoria Frost&Sullivan, existiam mais de 7 milhões de pessoas em todo o mundo que faziam o uso desse modelo de deslocamento, sendo apenas 85 mil em nosso país. Em média, as plataformas que atuam no setor cobram entre R$70 e R$400 a diária, dependendo do modelo escolhido e o valor já inclui seguro;

Compartilhamento de bikes e patinetes: Assim como citamos a tendência de compartilhamento de carros, vindo em uma crescente há também o compartilhamento de bikes e patinetes em todo país. Cidades como São Paulo acabam saindo na frente e o modal faz parte, inclusive, no Plano Diretor Estratégico da capital. Atualmente, existem mais de 10 grandes startups que atuam nesse segmento, que tende a ser expandido nos próximos anos. Players globais de mobilidade urbana e sustentabilidade também têm realizado investimentos nessas empresas, visando ampliar o alcance ao público final e oferecer melhorias na mobilidade dos grandes centros brasileiros.

Além de São Paulo, Porto Alegre (RS) também já opera em sistemas semelhantes. Mas é interessante ver também que outras cidades, nem tão grandes assim, também têm valorizado tais iniciativas. Em São José dos Campos, por exemplo, foi divulgado recentemente um decreto que autoriza esse meio de transporte na cidade. À proposta deles é incentivar o uso de veículos não motorizados para pequenos deslocamentos.

Claro que como todas as áreas, a mobilidade urbana ainda tem um longo caminho a percorrer. Mas se observamos as tendências e necessidades da população, o Brasil deve ganhar destaque nos próximos anos no quesito soluções sustentáveis que realmente impactam positivamente a vida das pessoas.

*Gabriel Arcon é CEO da E-moving, startup de aluguel de bikes elétricas.