Desespero em tempos de crise: o que há de humano em meio à barbárie?

22 days ago

Por: Central Press

 

Cláudia Cobalchini*

O momento atual que estamos vivendo nos permite observações interessantes acerca do comportamento humano - e o que não dá para negar é a força social exercida sobre o indivíduo. Primeiro, pelo bombardeio de informações de fontes diversas, algumas confiáveis, outras nem tanto, mas que chegam à população com status de verdade e a colocam em um movimento de “barata tonta”, com a pergunta “corro para onde”? Somos alvejados cotidianamente pelas posições sensacionalistas daqueles que ou têm em mente o intuito de manipular as informações, ou por aqueles que estão desesperados e, desenfreadamente, reproduzem-nas sem buscar conhecer as fontes ou ponderar a lógica do que está sendo veiculado. E diante disto, que parece um caos, ou melhor, uma “torre de Babel” com muitas “línguas” sendo faladas ao mesmo tempo, mas não sendo compreendidas, instala-se um comportamento coletivo de “histeria” (denominariam alguns colegas), em que sem nem bem saber porque, seguem a “onda”.

Assim tem se apresentado o cenário mediante uma crise instaurada na saúde, cujas consequências atingem os âmbitos econômico, cultural, geopolítico, dentre outros. As pessoas mantêm comportamento tanto de avidez pela informação sobre os trágicos efeitos de uma epidemia (já pandêmica), como alimentam atitudes de discriminação (preconceitos) em relação ao que consideram a origem do problema, de egocentrismo na busca da garantia de seu bem estar em detrimento dos demais (vide as compras desenfreadas, brigas por artigos de higiene), acirrando as desigualdades sociais tão presentes em sociedades capitalistas. A saúde, nesse contexto, compreendida como produto, é o mote da vez: com a corrida em busca da “cura” (vacina ou controle), há nações que querem chegar antes, sem considerar as outras como seus pares, quase num conflito armado.

Então, podemos questionar para que existem como crises. Elas representam a possibilidade de ruptura de algo que já estava nos “trilhos”. Servem para questionar ou que aparentemente estava em ordem, ou deflagrava ou que já não estava bem (mas ainda estava escuro). Mesmo que o momento de ver sob a luz seja dolorido, o conhecimento - ou o reconhecimento - de que algo não está bem e impele mudanças, também pode ser libertador. Dessa forma, que temos visto é uma deflagração do que há mais humano, os processos de identificação (sem sentido de sentir o mesmo) e a diferenciação (comparação e distanciamento), que se mostra como uma luta por esforço (para alguns a qualquer preço, pois a civilidade depende da educação social - precisa ser aprendida para convivência na sociedade). A diferença é o nível de sobrevivência que estamos falando. Existe possibilidade de viver sozinho? Fazemo-nos pelas relações sociais. Estas nos compostos. Então, se interações de reconhecimento ao vivo, você pode exercer uma empatia, uma alteração, com mais propriedade do que aqueles que estão privados dessa aprendizagem.

Em um sistema que teoricamente ideologicamente difere uma individualidade ideal como um conquistador, identifique-se como “espírito” gregário, identifique-se sobre a mesma “natureza” (somos feitos de sangue e carne, que dói, que chora, que se apaixona) )))))))) ...) Quem serve para destituir o valor social de nossa constituição? Um plano de governança que permite uma consulta, uma busca pelo espaço, uma comida, uma água, o preço de uma necropolítica, o genocídio, uma miséria…

A condição de humanidade precisa ser alvo de aprendizagem consciente, com uma proposta de valorização de cada um no coletivo, e isso se manifesta em cada eu. A história nos ensina: processos grupais são importantes para o movimento das sociedades, tanto na evolução (construção de novas tecnologias, melhorias na qualidade de vida, garantia de direitos autorais), como na obstrução do desenvolvimento (ao diferenciar grupos sociais no acesso a bens , ao não garantir equidade, ao incitar uma violência). A aposta agora pode ser uma produção de condições que valorizam a solidariedade e a aprendizagem mútua.

* Cláudia Cibele Bitdinger Cobalchini é psicóloga e mestre em Psicologia da Infância e Adolescência pela UFPR. É supervisora ​​de práticas profissionais em Psicologia Comunitária e Professora do Curso de Psicologia da Universidade Positivo.

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