Hackathon: trampolim para tirar uma ideia do papel

10 months ago

Por Patrícia Fragnani de Morais*

Nos últimos tempos, grandes ideias de vários segmentos do mercado têm vindo à tona e se concretizado em negócios inovadores. Nesse contexto, não é raro pensar em projetos que tivemos em algum momento da vida e querer tirá-los do papel. Com eles, também vem o medo de não conseguir executar, especialmente quando envolve tecnologia. Mas existem oportunidades que nos ajudam a ver algo acontecer, mesmo quando não dispomos de todo o conhecimento necessário. Os hackathons, maratonas de programação de temas variados, são esses espaços.

Durante minha trajetória como designer, participei duas vezes de ocasiões como essa. Na primeira maratona de tecnologia, não tinha sequer uma ideia. Queria entender a dinâmica e conhecer as etapas de desenvolvimento que são a base para a criação de uma startup. Já na segunda vez, durante a etapa do Global Legal Hackathon 2018, realizado na Softplan em Florianópolis, foi diferente.

A maratona, que reuniu 150 participantes divididos em times de 4 a 8 pessoas, tem foco no segmento da Justiça. Um colega de trabalho estava procurando um designer para a equipe e alguém citou meu nome. Estava querendo participar, pois não tinha uma ideia específica. Topei na hora. Meu grupo tinha oito participantes: alguns eram desenvolvedores, um outro formado em direito, além de especialistas em negócios. E só conhecia um deles. Ou seja, participando da maratona, tive a oportunidade de fazer networking, e conversar com os mentores e validadores que participaram do evento. Criamos uma rede de contatos.

No primeiro dia da competição, alguns magistrados expuseram suas dores. Uma juíza apresentou a dificuldade de alguém que foi condenado ou que está no processo de ser reinserido na sociedade. Em alguns casos, a pessoa está cumprindo uma medida restritiva, em regime semi-aberto, e deve se apresentar regularmente à Justiça. Nesse processo, pode passar por certos constrangimentos.

A partir dessa dor, amadurecemos a ideia e seguimos  o caminho, de procurar uma alternativa para que essa apresentação à Justiça não causasse intimidação, e para que as autoridades possam ter um controle maior ao fiscalizar a pena. Foi aí que surgiu a ideia do aplicativo “Apresente-se”. Por ele, pessoas que cumprem medidas restritivas — regime semi-aberto ou aberto, ou que têm que prestar serviços comunitários — recebem regularmente um aviso para que possam se apresentar à Justiça, sem um horário definido. Para evitar fraude, a apresentação é validada por voz e reconhecimento facial, e a localização da pessoa é registrada.

A apresentação física tem um custo elevado, tanto para quem deve se apresentar — gastos com deslocamento — quanto, e principalmente, para o Judiciário, que deve manter um servidor público disponível para fazer uma atividade que pode ser automatizada. Além disso, ferramentas como a tornozeleira eletrônica (que podem ser violadas e têm custo individual, por aparelho) também se tornam mais onerosas. Diferente disso, o aplicativo tem um custo menor para o sistema. Caso a pessoa não acesse o app — se ficar offline, por exemplo —, os órgãos competentes são prontamente notificados. No final das contas, vimos que essa é uma ideia viável. Foi quando fizemos um MVP (Produto Mínimo Viável) e validamos o projeto.

Um dos requisitos da final da maratona era verificar se o aplicativo seria comprado. Conseguimos validar com um Tribunal de Justiça: apresentamos a ideia e eles gostaram. Nosso projeto saiu como grande vencedor da etapa de Florianópolis. Depois dela, enfrentamos outra seletiva e ficamos entre os 14 projetos em nível global, apresentados na final, em Nova Iorque, EUA. Foi quando visitei o país pela primeira vez. Na final, cada time montou sua estação de trabalho e tiveram a oportunidade de se conhecer e dialogar.

Não ganhamos o grande prêmio, mas a maratona nos abriu três oportunidades: ter uma ideia e compartilhar com outras pessoas para desenvolver o projeto; fazer networking e conhecer profissionais de outras áreas, além dos times e as ideias de outros países; e aprender com as diferentes culturas, onde encontramos problemas e dificuldades semelhantes às dores apontadas na competição em Florianópolis.

Seguimos com a ideia mesmo depois de passado o evento. Até hoje temos um grupo nas redes sociais, interagimos, e tentamos conciliar os horários de trabalho para dar seguimento ao aplicativo. Aprendemos bastante um com o outro. Percebi o quanto criar uma startup é um processo rico e complexo. Neste ano, vou participar mais uma vez do Global Legal Hackathon, mesmo sem ter uma ideia ou equipe definida previamente. E tudo bem! Durante a maratona, percebi que qualquer contribuição é válida para ajudar uma ideia a sair do papel.

Minha experiência pessoal e como designer contribuiu de alguma maneira para uma ideia ser melhor desenvolvida. Além disso, pelo fato de o hackathon durar 54 horas na primeira fase, há uma questão de resiliência, de saber o momento de abandonar algumas ideias e investir em outras, por isso times multidisciplinares são tão importantes. Ainda que seja uma experiência mínima, ganha-se, além dela, networking, e a descoberta de que nenhum problema é impossível de ser resolvido. Junte pessoas dispostas e engajadas e faça acontecer!

*Patrícia Fragnani de Morais é Analista de Marketing Digital na Softplan.

Samira Frazão

Published 10 months ago