Há exatamente um mês, em 9 de setembro, encerrava-se no polo tecnológico de Santa Rita do Sapucaí (MG), cerca de 200 km da capital paulista, o festival de inovação HackTown. Em sua 4ª edição o evento apresentou, em formato inspirado no norte-americano SXSW, mais de 400 palestras em quatro dias, além de atividades como pitch de startups, onde novas empresas se vendem para investidores, feira de startups e tecnologia, showscases musicais, em que novos artistas se apresentam para o mercado musical e meet-ups temáticos para conectar profissionais com interesses em comum.

Em meio a tudo isso, os destaques foram incontáveis. O evento apresentou muitas inovações ao mercado. Como uma das frentes que mais tem se aproveitado dessa mistura de áreas, perspectivas e conteúdo que o HackTown oferece, o mercado musical mostrou como pode se transformar ainda mais através da tecnologia, da ciência de dados e de novos modelos de gestão e investimento inspirados no mundo das startups. Isso ficou evidente tanto nas palestras e debates, que trataram de temas que foram do impacto da inteligência artificial nos processos criativos até o impacto da música nas cidades, nas conversas informais e, principalmente no show dado pelas chamadas “Music Techs”, empresas que se utilizam da tecnologia para gerar valor no mundo da música, durante as atividades votadas ao mundo das startups.

Financiamento privado e aceleração de artistas

Durante a palestra “Investimento privado na música: do canvas ao investidor”, Marcelo Coelho, saxofonista e fundador da Acelerarte apresentou ao público do HackTown o primeiro case de captação para um artista junto a investidores anjo, seguindo um modelo muito comum das startups. O próprio Marcelo se colocou como projeto piloto dessa proposta e, no início de setembro, fez a primeira rodada de captação de investimentos para a Coelho Music, empresa que criou para administrar seus projetos artísticos.

Segundo Coelho, esse modelo de captação através do mercado privado de capitais pode transformar o mercado da música. “Hoje em dia, fora de circuitos mais populares como o do Sertanejo, centenas de artistas são dependentes de recursos escassos, disponibilizados a partir de de leis de incentivo e financiamento público para realizarem seus projetos. A abertura de uma via de captação privada muda a regra do jogo e dá novo fôlego à classe artística, possibilitando uma maior exposição para novos talentos e desenvolvimento sustentável de um número maior de projetos musicais no Brasil”, completa.

Com um modelo análogo ao de aceleradora encontrado no ambiente de startups, mas colocando o artista na posição de empreendedor, a Acelerarte apresenta uma proposta inovadora para o mercado musical, como a primeira aceleradora de artistas do Brasil.

A Lista das Listas

Outro projeto de destaque no HackTown 2018 foi o lançamento da Lista das Listas, realizada pelos produtores Pena Schmidt, que tem uma relação especial com Santa Rita do Sapucaí por ter estudado ali, na primeira escola de eletrônica da América Latina no final da década de 1960, e Rafael Chioccarello, responsáveis pelo projeto que tem como objetivo mapear a música brasileira.

Com um modelo de predição baseado na análise quantitativa e qualitativa das listas de melhores do ano tradicionalmente criadas por críticos, jornalistas, radialistas, blogueiros e profissionais do mercado da música, o projeto levanta a média das escolhas e analisa como isso acaba refletindo o que despertou interesse em quem acompanha de perto a música brasileira, funcionando como um termômetro para apontar o que é uma aposta de longo prazo e o que é emergente, e permite que o mercado musical pense e repense suas estratégias. É a ciência de dados e o mundo das artes andando lado a lado.

Startups de Music Tech

Entre mais de 100 startups de áreas distintas presentes no HackTown 2018, o destaque ficou para a Bee My Ears, escolhida como a startup número um do evento pelos investidores presentes. Criada pelo músico e produtor Bruno Justi em Los Angeles (EUA) com foco no mercado brasileiro, a Bee My Ears é uma plataforma inovadora de pesquisa musical que conecta artistas independentes a profissionais consagrados da indústria musical nacional e internacional.

Com a ferramenta, o artista tem a oportunidade de criar seu perfil sem custo e, caso adquira um dos planos disponíveis, recebe um relatório elaborado a partir da opinião do público e dos chamados "Ouvintes Premium", que são profissionais de destaque, como Grecco Buratto (Shakira, Earth Wind & Fire, Pink), Geoff Mayfield (Consultor, Jornalista, Universal Music, Billboard), Erin Workman (Disney, Selena Gomez, Los Angeles College of Music), Jean Dolabella (Ego Kill Talent, Sepultura) e Kevin Day (Universal Music, Sound Royalties, Skyrocket Entertainment). O relatório traz insights e feedbacks valiosos que vão ajudar o artista no planejamento da sua carreira e na promoção do seu trabalho. Os artistas com maior aprovação serão apresentados a produtores, gravadoras e agentes.

A plataforma disponibiliza três planos: Bee Simple, Bee Premium e Bee Video. Cada um deles apresenta aproximadamente 50 indicadores que avaliam a qualidade da voz, instrumentação, letra, arranjo; questões que associam a música com marcas, programas de TV, filmes, gêneros cinematográficos; conceito do clipe, da criatividade e originalidade, da relação entre música e vídeo e muito mais. Do outro lado, o ouvinte é pago para dar sua opinião sincera sobre conteúdos artísticos, contribuindo com o desenvolvimento do cenário musical.

Outra Music Tech que se destacou no HackTown 2018 foi a Sling Musical, startup criada pelo músico e empreendedor Thor Moura. Utilizando Blockchain, tecnologia que garante a transparência e integridade de todas as transações, e a Ciência de Dados para auxiliar em tomadas de decisões, a empresa, que tem um plano de negócios consistente e ainda se encontra em estágio de desenvolvimento tecnológico, pretende ser uma ferramenta de transformação e união de músicos, ouvintes, produtores, casas de shows, gravadoras, empresários e empreendedores entusiastas do mercado da música, conectando diretamente todos estes players, sem a necessidade de intermediários para estabelecerem relações, produções de conteúdo, geração e trocas de valores, contratos, vendas, promoção de suas criações e o desenvolvimento de suas carreiras.

Durante as apresentações de startups, a Sling Musical chamou a atenção do grupo InconforMakers, especializado em facilitar a cocriação de jornada do usuário final para startups, que premiou a startup com um trabalho focado em validar alguns pontos do serviço, e rodou uma sessão com a Music Tech durante o próprio HackTown.

“As conversas que tivemos com a InconforMakers, suas ideias e todos os frutos do workshop com eles e um grupo de 16 pessoas voluntárias nos proporcionou uma experiencia riquíssima de aprendizado e aperfeiçoamento de nossa plataforma, além de estabelecer uma união forte com eles que trouxe muita energia e inspiração para todos os envolvidos”, conta Thor Moura. “O Hacktown foi um campo aberto de aprendizados, conexões, explorações, descobertas que estamos levando conosco para nosso desenvolvimento, melhorando nosso ecossistema digital de forma que gere cada vez mais impacto e atenda cada vez mais nosso propósito e o de milhões de artistas no mundo todo”, conclui.