O documentário "AlphaGo" (disponível na Netflix) mostra a evolução do software de inteligência artificial "DeepMind" e o seu desafio ao campeão mundial do milenar jogo oriental Go, Lee Sedol, que ocorreu em março de 2016. Mas, não é um filme sobre tecnologia (embora ela seja um dos personagens principais) É um filme sobre um homem enfrentando algo que ele não conhece, e que o "pega de surpresa". É um filme que mostra o sofrimento desse homem, à medida que percebe a sua impotência frente a esse competidor, que é, ao contrario do que ele imaginava, criativo, seguro, implacável. Também mostra a redenção desse homem (impossível não torcer por ele, embora ele não tenha nada de simpático). E no final, o filme nos permite entender qual será nosso papel (seres humanos) no futuro.

Os pesquisadores americanos Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, do MIT, nos explicam no livro "The Second Machine Age" que é preferível correr COM as máquinas do que CONTRA elas. É um bom conselho, mas, é importante entender o que isso realmente significa, quando está se falando de IA, e, especialmente de Deep Reinforcement Learning. Não é simplesmente um "conhecer a tecnologia" e "saber como aplicá-la em seu trabalho". É mais do aque isso.

Parte da dificuldade do campeão Lee Sedol em enfrentar o AlphaGo foi não ter a minima ideia de como ele "pensa" sua estratégia no jogo. Nem ele, nem seus criadores sabem isso com precisão, pois embora parte dos algoritmos empregados tenham sido construidos com determinados objetivos (p.ex, uma parte do sistema faz a avaliação de probabilidades das jogadas), outra parte importante ficou armazenada nos padrões de milhares de jogos de Go inseridos em suas rede neurais (e posteriormente, dos milhares de jogos que jogou contra si mesmo). Não é possível fazer uma "reengenharia reversa" completa do AlphaGo, para entender o que "ele" estava "pensando" quando fez determinada jogada.

A outra parte da dificuldade é que essa estratégia era "não humana". Não surgiu de aprendizado da cultura, da história do jogo, de análises de estratégias dos grandes jogadores, de experiência pessoal. É como se ele estivesse jogando GO com um alienígena (essa ideia é do livro "After the Internet: Alien Intelligence, de James Martin).

Assim, o AlphaGo conseguiu, a sua maneira, criar uma nova maneira de entender e jogar o jogo de Go. E, no filme, Lee Sedol entende isso (um pouco tarde demais). E afirma que "o AlphaGo nos fez mudar a maneira de entender e jogar Go, talvez pelos próximos mil anos" (não é exagero, pois o Go é jogado a pelo menos dois mil e quinhentos anos). Um analista no filme explica: "o AlphaGo provocou uma nova postura no Lee Sedol, que passou a ver o jogo com outros olhos: Lee Sedol se aprimorou através da máquina".

Aí entra a questão, como correr COM as máquinas? Elas "pensam" diferente de nós por isso, "percebem" situações e problemas de uma maneira diversa. Pensam "fora da caixa" (embora estejam dentro de uma). O uso dessa "criatividade artificial" poderá ser uma ferramenta espetacular para os profissionais e as organizações que saibam dela se aproveitar.

Imagine o AlphaGo "olhando" o transito de São Paulo por algum tempo. Logo "ele" poderá sugerir a colocação de faróis de trânsito onde ninguem havia pensado antes, com resultados muito superiores aos obtidos com a gestão "tradicional" do tráfego.

O conhecimento profundo sobre o assunto, tema, área de negócio continuará sendo necessário, e, mais exigido, para que seja possível compreender e aplicar esses novos pontos de vistas que serão trazidos pela IA em cada vez mais áreas. O jogo de GO foi apenas uma das mais recentes dessas....