Por Ricardo Taveira

O que parecia uma realidade distante vem se aproximando, rapidamente, do nosso mercado. O Open Banking—a possibilidade de se acessar os serviços de um banco por meio de qualquer sistema que o usuário escolha—avança em passos largos no Brasil.
Vários bancos, desde atores tradicionais de atacado até os maiores de varejo, já anunciaram publicamente iniciativas com APIs e colaborações com fintechs. Outra dezena, dos mais variados tipos, trabalha furiosamente em projetos ainda não-anunciados.

Se em 2006 o Banco Central já atuava na “abertura” do sistema bancário com a resolução 3.401/06, que obrigou a portabilidade de cadastro bancário, a mais recente resolução 4.649/18, que obriga os bancos à fornecerem débito em conta para Instituições de Pagamento, mostra que nosso Banco Central atuará mais energicamente na promoção da competitividade do sistema financeiro.

Seja por inevitabilidade regulatória ou arrojada estratégia comercial, como saber se seu banco está preparado para esta nova realidade? Baseado nas experiências mais recentes de diversos bancos e parceiros de tecnologia da Quanto, seguem os principais critérios para avaliação antes de definir sua estratégia de Open Banking:

Processos: muito além da transformação digital
Condição necessária para criar e capturar valor com Open Banking é já ter passado por uma extensa transformação digital dos processos internos do banco ou instituição financeira (“IF”). A preparação para o Open Banking começa por um processo de abertura de conta ou contratação de produtos 100% online e digital. Mas se enganam aqueles que acreditam que isso seja suficiente: o mundo do Open Banking se distingue pela possibilidade de o cliente utilizar estas funções a partir de sites e aplicativos de terceiros. Só assim uma IF conseguirá aproveitar, ao máximo, o open banking para distribuir seus produtos para terceiros.

Isso também significa que nem sempre o canal de atendimento será o aplicativo do banco, podendo gerar confusão para o cliente na falta de processos claros. Basta perguntar para um colega egresso do mundo das operadoras de celular para escutar histórias sobre o hábito de alguns consumidores entrarem com reclamações no PROCON simultaneamente contra a operadora, na tentativa de que alguém resolva seu problema. A IF precisa se antecipar e definir claramente processos e limites para parceiros e clientes.

Tecnologia: “plataformas” e plataformas de APIs
Boa parte dos bancos já possuem APIs de consumo interno. A exposição destas APIs para o mundo externo já é um primeiro passo importante para construir um “open bank”. Em um ambiente em que bancos, parceiros e clientes possuem necessidades diferentes para aproveitar ao máximo o open banking, na prática essas “plataformas” quase sempre solucionam o problema do banco, em geral ajudam o desenvolvedor, mas quase nunca auxiliam o consumidor final.

Integrações “um-para-um”—entre um banco do segmento agrícola e uma fintech de câmbio, por exemplo—sem dúvida ampliam o leque de escolhas do cliente. Mas a diferença de uma ferramenta para viabilizar parcerias e uma ferramenta pluripotente, que transforma o banco em uma plataforma exponencial necessita a participação do banco em um ecossistema que trabalha para o cliente. O futuro pertence àqueles que entendem (e aceitam) que em nosso exemplo acima, a escolha da fintech utilizada para o câmbio será do cliente e não do banco. E plataforma de APIs do banco precisa estar preparada para conectar de maneira segura, acessível e de maneira totalmente “self-service” para o desenvolvedor e o cliente também, baseado na escolha destes atores, e não do próprio banco.

Até mais importante do que a escolha de provedor ou tecnologia da API, o modelo de uso da sua API—se é self-service ou não, se possui aderência à uma plataforma que agrega vários provedores—é o fator crítico de sucesso de uma estratégia de open banking. Basta lembrar o que aconteceu com a RIM—fabricante do Blackberry—em face de uma plataforma aberta como o Android para ver o risco da história se repetir com a escolha de uma estratégia “fechada”.

Cultura: confiança e serenidade em meio a tempestade
Após décadas de construção do “supermercado financeiro” e a dominância de termos como “share-of-wallet”, o Open Banking colocará em cheque anos de trabalho em alguns departamentos de produto. Alguns destes irão potencializar sua distribuição através de novas plataformas e novos produtos dos mais variados nichos. Enquanto isso, outros que sobreviveram somente pelas vantagens do “protecionismo” ou subsídio interno serão expostos à concorrência global. Gestores serão forçados a reavaliar suas estratégias continuamente, tomando decisões difíceis sobre onde alocar esforços, recursos e talentos.

Enquanto isso, do lado operacional, novos desafios de segurança, autenticação e de privacidade de dados trarão um novo vocabulário para os departamentos de compliance, jurídico e segurança da informação. E ao contrário do seu papel tradicional de avaliação e consentimento, mais do que somente fornecer o “de acordo”, estas áreas estarão na linha de frente não só da execução, mas também da criação de estratégias verdadeiramente “abertas” de Open Banking.

Uma autorreflexão individual e coletiva
Com decisões, execução e resultados medidos em dias e não meses, a IF e seus colaboradores precisarão de bastante serenidade diante de novos concorrentes, novos modelos de negócio e uma constante evolução em que o concorrente de ontem é o parceiro de hoje e ninguém sabe o amanhã. E talvez a melhor avaliação sobre se o seu banco está preparado para este acelerado novo mundo—com riscos e oportunidades igualmente exponenciais—seja a resposta do gestor a uma única pergunta: Seus processos, tecnologia e cultura trabalham juntos para minimizar o downside ou maximizar o upside da sua estratégia? Se o seu foco é em capturar ao máximo o valor gerado por novas oportunidades, bem-vindo ao Open Banking. Este novo mundo foi feito para você.

**Ricardo Taveira é CEO da Quanto quanto@nbpress.com