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Ser professor no Brasil

Daniel Medeiros*

Somos em torno de 2,5 milhões de professores, atuando desde o fundamental até o ensino superior. Nem todos temos formação adequada e muitos poucos de nós consegue ter uma educação continuada. Nossa média salarial é uma das mais baixas entre as nações com economias desenvolvidas. Se considerarmos os países da OCDE, que conta com 38 membros efetivos e 8 convidados (que é o caso do Brasil), recebemos metade da média deles. Se considerarmos internamente, com outros profissionais com o nível de escolaridade que é exigido de nós, recebemos 71% da média desses profissionais. Para resumir: em média, recebemos um pouco mais da metade do auxílio moradia de um juiz federal. Aliás, lembram quando o governo federal ofereceu 10 mil reais para os médicos do programa Mais Médicos e quase ninguém quis ir? Era quatro vezes o valor médio do salário de um professor no Brasil.

Mas salário é apenas a ponta do iceberg da situação do professor no Brasil. Os cursos de formação são, na sua grande maioria, muito precários e distantes da realidade. Dificilmente um professor formado sabe o que fazer em sala de aula quando deixa a faculdade. A lição dos países que se destacam na Educação começou por aí: o fechamento dos cursos de formação, que eram sofríveis. Redução drástica da oferta de vagas e inspeção rigorosa e constante nos cursos remanescentes, para garantir a qualidade na formação. E, obviamente, aumento de salários. Essas duas medidas começaram a atrair jovens para a licenciatura. Hoje, no Brasil, cerca de 2% dos jovens que estão no Ensino Médio desejam ser professores. Recentemente, o Ministro da Educação disse, sem rubor nas faces, que “ser professor é ter quase que uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa”. Os números revelam que, basicamente, é isso mesmo. Jovens com potencial de aprendizado buscam áreas com maior possibilidade de remuneração e de reconhecimento social. O magistério não oferece nem uma coisa e nem outra.

Reformar profundamente os currículos e diminuir drasticamente a oferta de vagas, além de melhorar substancialmente os salários, com a implantação de uma quadro de carreira baseado no aperfeiçoamento continuado e no resultado da aprendizagem, seria um bom começo. Quanto ao reconhecimento social, provavelmente virá como consequência dessas transformações. Imagine que jovens comemorem a aprovação em um curso de Física ou Letras com a mesma alegria que demonstram com a aprovação em Medicina e Direito? E os pais, orgulhosos, colocando faixas em frente de casa com os dizeres: “Nosso filho foi aprovado em Filosofia!”

Ser professor no Brasil é alimentar, diariamente, a ilusão de uma dignidade que nos é negada e, com isso, um futuro que é negado às crianças e jovens. A dor de não ter condições adequadas de trabalho, obrigando-nos a jornadas extenuantes, às vezes de três turnos, sem tempo para a devida preparação das aulas, compra de livros e frequência em cursos, é a de saber que o resultado do nosso trabalho não está à altura do que merecem as crianças e jovens do país, do próprio país. E a ideia de um “futuro melhor” vai ficando restrita apenas a uma camada cada vez mais estreita dos que podem contar com escolas de qualidade, oásis em meio ao deserto de falta de investimentos e gestão de qualidade. E a desigualdade, essa chaga mortal da nossa sociedade, mãe da violência social e dos voos de galinha da economia, vai se normalizando, como se fosse um destino ao qual devemos todos nos conformar.

Tenho o privilégio de ser um profissional de ensino bem remunerado e cercado das condições materiais e pedagógicas mais avançadas para exercer o meu ofício. Pude chegar ao último estágio da minha formação acadêmica - o doutorado - e usar meu aprendizado para melhorar meu trabalho em sala de aula. Leciono em uma única empresa e minha carga horária permite que eu possa estudar e preparar minhas aulas adequadamente. Com o que ganho, consigo comprar livros, assistir filmes, viajar e conhecer outras culturas e realidades.

Sou um privilegiado? Não deveria ser. Sou um professor e isso deveria ser suficiente para justificar essas condições profissionais. Mas sim, sou um privilegiado e meus alunos e alunas também, na medida em que têm a oportunidade de ingressar nas mais importantes universidades e, com isso, alcançar os postos de trabalho mais bem remunerados e reconhecidos. Essa condição deveria ser um direito de todos. Um direito pelo qual não deveríamos descansar até efetivá-lo. E quem sabe um dia, assim como ocorre no Japão, o chefe da Nação curve a cabeça ao nos ver passar. Por respeito e não por indiferença.



* Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.

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