Por Alexandre Pierro

Aprimorar os processos de inovação e garantir que o termo não seja usado apenas no discurso é o desejo da maioria das empresas brasileiras. Uma pesquisa feita recentemente pela Desenvolve SP, mostrou que mais da metade dos empresários paulistas pretende investir em algum tipo de inovação entre 2018 e 2020.

Ao encontro desse anseio, acaba de surgir a ISO 50.501, uma norma internacional que está prevista para ser publicada no Brasil em fevereiro de 2019, e que pretende garantir que a inovação não seja apenas um discurso e sim uma cultura inerente ao cotidiano da empresa. A proposta é criar uma política capaz de suportar a organização diante de tantas transformações.

A implementação desse sistema de gestão permite que as empresas brasileiras adquiram as melhores práticas de inovação adotadas nos mais de 163 países membros da ISO. E, ao contrário do que possa parecer, a ideia não é engessar a inovação, mas sim organizá-la de forma a trazer ainda mais benefícios. Por isso, listo abaixo os seis principais motivos para investir nessa nova certificação.

  1. Gestão de Insights: Apesar de inovação não ser apenas uma excelente ideia, tudo nasce dessa fagulha criativa. O primeiro benefício é que, com a implementação da norma, a empresa passa a ter uma política de gestão para novas ideias. Ou seja, quando um colaborador tem um insight de melhoria, independentemente de ser em um processo, produto, serviço ou atendimento ao cliente, existe um protocolo claro de como tratar essa ideia, de como testá-la e fazê-la seguir adiante para ser implementada. A ideia não morre sem antes ser ouvida. O mais interessante é que não há discriminação entre níveis hierárquicos. A inovação surge em todos os cantos, não apenas na alta gestão.

  2. Domínio das incertezas: Gestão de riscos é indispensável em todas as empresas, mas cada uma tem sua própria forma de pensar sobre perigos, ameaças e oportunidades. Com a inovação, é possível fazer uma análise diferente sobre os riscos diários e, a partir disso, dominar os cenários e as incertezas. A norma usa a inovação para achar métodos e processos diferentes para lidar com os problemas. Toda experimentação, processos de ideação e MVP - Minimum Viable Product (produto minimamente viável), são fatores de risco para as empresas, já que presumem muitos erros. Saber geri-los é uma das etapas da ISO 50.501.

  3. Cultura adaptativa: Resiliência e flexibilidade são habilidades cada dia mais exigidas pelo mercado. Quando analisamos essa norma, talvez a cultura adaptativa seja um dos maiores benefícios apresentados. Trata-se de criar dentro da empresa um comportamento de adaptabilidade, onde é possível identificar as demandas do mercado, olhar as tendências e as oportunidade. A partir daí é que são criados novos produtos, serviços e formas de capitalização. Essa capacidade de se adaptar é imprescindível, ainda mais em tempos de tantas vulnerabilidades e incertezas.

  4. Espírito colaborativo: Ainda permeando a cultura, o próximo grande benefício fala sobre desenvolver a capacidade de estar aberto para a colaboração. Trata-se de um hábito onde as pessoas possam falar abertamente e também aprendem a ouvir. Criar esse canal aberto de diálogo é indispensável para fazer florescer a inovação. Um ambiente onde os colaboradores se sentem à vontade para dar feedback positivo e negativo para a gestão acaba sendo também um espaço de colaboração. Sem falar que, uma empresa capaz de ouvir seus funcionários, consegue engajar a equipe - algo essencial para qualquer sistema de gestão. Essa cultura de feedback ativo tem que ser receptiva também para ouvir clientes, fornecedores, parceiros. É por meio de uma escuta ativa que aprendemos sobre nossas forças e fraquezas e conseguimos agir sobre elas.

  5. Liderança visionária e inspiradora: Os líderes de uma organização precisam ser pessoas inspiradoras e visionárias. Quando a liderança tem o mindset voltado para inovação, ela é capaz de direcionar as pessoas e criar processos que viabilizem esse futuro emergente. Os líderes precisam estar focados e motivados com o futuro, antenados sobre inovação. A norma prevê, portanto, a criação de um processo que treine as pessoas dentro desse pensando visionário.

  6. Propósito Massivo Transformador: A missão de uma empresa é o motivo pelo qual ela existe e, pensando em inovação, esse propósito deve ser encarado de maneira visionária e transformadora. A inovação surge da dificuldade, da necessidade de criar algo novo e atingir outros níveis de sucesso. Portanto, a norma propõe que a empresa tenha um propósito massivo e transformador. O processo de gestão da ISO vai direcionar para que isso aconteça e, para que a missão vá além de ser a maior de seu segmento ou lucrar mais. A ideia é que todas as decisões sejam tomadas em prol dessa missão, para que a empresa cumpra esse propósito. O processo quer garantir que a empresa seja inovadora de fato e que todas as decisões sejam tomadas para que ela se mantenha firme nesse caminho.

Todos os tipos de empresa podem - e devem - buscar a ISO 50.501 para garantir que seus processos de gestão da inovação sigam as melhores práticas do mundo. O processo é simples. A empresa passa por uma fase de diagnóstico, que pode ser feito tanto por uma equipe interna de gestão quanto por uma consultoria terceirizada, desde que se detenha conhecimento específico sobre essa norma. A próxima fase estabelece um cronograma de ações, que varia caso a caso, uma vez que é completamente personalizado para cada empresa.

A partir da publicação da versão traduzida da norma pela ABNT, previsão para fevereiro de 2019, a empresa poderá optar por acreditar a norma junto a uma certificadora ligada ao INMETRO. Investir em inovação é a grande oportunidade de transformar as empresas brasileiras. O mundo todo já percebeu que é preciso inovar para sobreviver. Tanto é que o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) acaba de anunciar que vai repassar à Finep US$ 1,5 bilhão para serem aplicados em projetos de desenvolvimento e inovação em empresas brasileiras. Vale a pena ficar de olho.

Alexandre Pierro é engenheiro mecânico, bacharel em física aplicada pela USP e fundador da PALAS, consultoria em gestão da qualidade.