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Três virtudes que não temos

José Pio Martins*

Os socialistas gastam parte de seu tempo tentando convencer a população de que
eles detêm o monopólio da indignação diante da pobreza e que os liberais são
defensores dos ricos. Para começar, ninguém detém o monopólio do amor aos
pobres em razão da doutrina que professa. Segundo, o que difere uns dos outros é o caminho que julgam ser o mais adequado para a obtenção do progresso material e da melhoria social.

A prosperidade deve começar com uma questão essencial: o fim da pobreza
depende da criação de riqueza, entendida como o conjunto de bens e serviços
necessários a um padrão de vida digno a toda a população. A geração de riqueza de
forma crescente, em volume superior ao aumento da população, exige que a nação
consiga colocar em marcha as engrenagens do capitalismo, sistema sob o qual a
produção se dá e o crescimento econômico acontece.

O socialismo não é o caminho para o progresso material, pois esse sistema requer o fim da propriedade privada e o comando da produção pelo Estado, coisa que não se faz sem ditadura. Socialismo marxista democrático com liberdades individuais é algo que não existe. A engrenagem capaz de gerar riqueza, dar eficiência ao sistema produtivo, promover inovação e gerar crescimento suficiente para melhorar o padrão médio de vida é o capitalismo democrático.

O capitalismo é um sistema com direito de propriedade privada, liberdades
individuais, produção comandada pelo setor privado e governo para fornecer os
bens coletivos e corrigir falhas de mercado. Mas o capitalismo é uma engrenagem
complexa, cujos dentes precisam ser lubrificados e limpos para não comprometer
sua eficiência e sua capacidade de gerar riqueza. Não é um sistema perfeito, mas é o melhor que a humanidade inventou.

Há três virtudes, que não temos no Brasil, sem as quais a engrenagem produtiva
emperra e não avança. A primeira é a cultura da confiança. O bom funcionamento
do sistema produtivo depende da confiança nas instituições, confiança nas leis e nos contratos juridicamente perfeitos, confiança na palavra empenhada e na solução rápida dos conflitos comerciais, para o que é preciso haver um bom corpo de leis e Justiça rápida e eficaz. No Brasil, a cultura é da desconfiança, que emperra o funcionamento da engrenagem produtora de riqueza.

A segunda é a ética pública. Quanto maior o grau de ética dos governos, das
instituições, das empresas e das pessoas, maior é a certeza sobre o comportamento
esperado dos outros e, portanto, mais eficiente é o sistema. As ações do governo
não são neutras em termos de consequência moral. Quando age, o governo educa
para o bem ou para mal, e sua ética tende a ser imitada por parte das pessoas e das
empresas.

Por fim, falta-nos o óleo das engrenagens do capitalismo. O sistema produtivo é uma engrenagem complexa, cujos componentes (dentes) contribuem para fazer o
sistema funcionar com mais ou menos eficiência, produtividade e qualidade. Cabe ao governo ser promotor das engrenagens produtivas, não um empecilho. No Brasil, o setor público é um entrave ao empreendedorismo, ao espírito de iniciativa e aos negócios. O Estado brasileiro é pródigo em jogar areia na engrenagem capitalista, não em azeitá-la.

O capitalismo por si só não resolve certos problemas sociais, como, por exemplo, a
distribuição de renda. Para isso existe o governo, cuja missão é tributar a riqueza
(produção) e reduzir as desigualdades. Se não faz isso, o governo não cumpre uma
das principais razões de sua existência.

José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.