Por Marcelo Abreu e Felipe Silva Neves

O agronegócio brasileiro vem mostrando resultados bastante positivos no último ano. O setor encerrou 2017 com crescimento de 11% em relação ao ano anterior e foi, sozinho, responsável por 23,5% do total do Produto Interno Bruto, segundo dados do IBGE. Em 2018, ainda temos um cenário positivo, principalmente em relação à produtividade. Além disso, a participação do setor no PIB nacional chegou a R$ 605,2 bilhões. Mas ainda temos um grande desafio pela frente e vale a pena se debruçar sobre ele.

Um dos maiores riscos da atividade agrícola envolve o controle de pestes em lavoura. Esse controle de pestes se baseia na aplicação de pesticidas (agrotóxicos) a predadores que atacam as lavouras, juntamente com o controle biológico, que emprega o uso de um organismo predador para atacar agentes prejudiciais ao que foi plantado. Assim, o processo é baseado na identificação do organismo danoso e escolha do melhor método para combater.

É nesse estágio de identificação que a tecnologia pode ajudar na contenção de pragas, gerando oportunidades de negócios. Com o auxílio de visão computacional embarcadas em veículos autônomos não tripulados (os VANTs), é possível fazer o mapeamento da área de lavoura e identificar organismos nocivos em um curto espaço de tempo. Dessa forma, é permitido realizar a tomada de decisão sobre o método de contenção antes da sua contaminação da lavoura. O método tem sido utilizado com sucesso para controle de lagartas desfolhadoras.
A utilização de VANTs favorece também o uso de métodos de controle biológico de pestes, uma vez que o mapeamento de cada organismo na lavoura ocorre em menor tempo, um maior esforço na pesquisa de organismos predadores pode ser empregado, culminando na diminuição do uso de agrotóxicos como método primário de controle.

VANTS: Como funciona?
Apesar de assustar, o uso de visão computacional empregado em VANT é intuitivo. Contém uma câmara térmica, responsável pela captura de imagem da lavoura, que depois é enviada para a unidade de processamento principal do VANT. Essa unidade tem a missão de coordenar os comandos de voo ao VANT enquanto recebe as imagens capturadas pela câmera e efetua uma análise primária das imagens. O veículo é utilizado como agente de navegação autônoma, assim como para o processamento das imagens obtidas. Seu trabalho principal é receber as coordenadas de localização e comandar a unidade de câmera térmica para que capture as imagens.  
Além do mapeamento e envio das imagens para análise em tempo real, o VANT também combina modelos de aprendizagem de máquina, permitindo que o próprio VANT efetue a inferência da atividade térmica, classificando organismos como nocivos ou inofensivos à lavoura examinada. Dessa forma, é reduzido ainda mais o tempo da tomada de decisão na escolha de método de controle de pragas.

Avanço tecnológico e benefícios para o setor
Quando falamos em tendências tecnológicas para o setor agrícola, algumas vantagens devem ser observadas atentamente. Entre elas, redução de custo operacional ou aumento de produtividade da lavoura são as principais. Com o controle de pestes por visão computacional não é diferente. Então, vamos conhecer algumas das vantagens do VANT:
• Redução em torno de 30% do custo operacional e de headcount para levantamento de pragas existentes nas lavouras;
• Redução do tempo de tomada de decisão para controle de pragas, culminando em maior mitigação do custo operacional da lavoura;
• Precisão na escolha do método de ataque às pragas da lavoura, que se traduz em maior produtividade de determinada cultura;
• Mitigação de risco de atividade agrícola.
Apesar dos benefícios apresentados pelo VANT, é necessário ter atenção em um detalhe. A regulamentação do espaço aéreo que, mesmo sofrendo avanços, ainda caminha a passos lentos. E já que o progresso é devagar, é importante ter homologação da ANATEL, visto que possuem um grande número de canais de comunicação sem fio. Tempo contínuo de voo é outro desafio a se contornar, tipicamente sendo impactado pelo desempenho do conjunto formado por gerenciamento de energia e bateria escolhida.

Novas técnicas de gerenciamento de energia, processadores de baixo consumo e até chips específicos para funcionalidades básicas de câmera e voo tem sido desenvolvidos e prometem ser os agentes para lidar com os desafios de tempo de voo. Quanto aos aspectos regulamentares, a velocidade do avanço nas negociações tem sido influenciada positivamente pelo crescente interesse no uso de VANTs no setor agrícola.

Assim, a utilização de tecnologia para mitigação de risco em atividades da lavoura tem mostrado oportunidades de negócios capazes de trazer benefícios de redução de custos e elevação de produtividade em larga escala. O controle de pragas em lavoura é uma das soluções mais requisitadas por quem está no campo e o uso de visão térmica em veículos autônomos — através da embarcação dessa tecnologia em VANTs — pode oferecer precisão e velocidade na tomada de decisão do método de controle de pestes, possibilitando um combate mais eficaz às pragas de lavouras.

Marcelo Abreu é Executivo de Inovação do Venturus; Felipe Silva Neves é Analista de Desenvolvimento do Venturus