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O legado da possibilidade

Daniel Medeiros*

Quando podemos dizer que uma coisa deu certo? O que é, afinal, um sucesso? Essas perguntas são fáceis de responder quando o objetivo é muito restrito, específico. Se alguém queria comprar algo e comprou, pronto, foi bem sucedido; se pretendia chegar em algum lugar e chegou, deu certo. Mas quando o propósito é maior, mais complexo, sem limites muito claros e previsíveis, como é que fica?

Por exemplo, construir um país democrático.

Como sabemos, foram os gregos que tiveram essa ideia incrível de suspender as diferenças entre as pessoas e considerá-las, para efeito das decisões públicas, iguais. Assim, o nobre, o comerciante, o artesão, o agricultor, desde que cidadão, lá na ágora , era igual, tinha direito a ter voz como qualquer outro que estava ali. Não sei o que vocês acham disso, mas para mim é uma coisa incrível essa ideia. Não há, na natureza, e nunca havia existido antes nas sociedades marcadas, uma ideia como essa, na qual a imaginação criava um campo de igualdade que anulava provisoriamente como diferenças reais e permitia que outras qualidades pudessem ser destacadas: o diálogo, a persuasão, o acordo, o consenso.

E deu certo? Foi um sucesso? Bom, aí é que está. Essa é uma questão.

Em favor da democracia, o que podemos dizer? Deu voz a quem não era bem nascido e bem nutrido e muda que várias maioresias eram formadas em favor de demandas dos grupos mais vulneráveis. Boa parte do mundo experimentou esse modelo, com maior ou menor grau de incremento, e os resultados apareceram. Mas nada foi perfeito. Porém, o sucesso exige perfeição? E o que seria essa perfeição? Aí que está. Os gregos só admitiam na praça os homens nativos adultos. O tempo passou e a ideia de isonomia ampliou-se, incluindo mulheres e jovens. Em um país como o nosso, já somos quase 150 milhões de pessoas aptas a votar ea decidir quais ideias queremos que determinem os rumos dos nossos espaços públicos. Sucesso. Ou não?

Um outro aspecto muito relevante na democracia é que as ideias vencedoras nunca são definitivas. Como são resultado dos consensos e os consensos são provisórios, quem é derrotado naquilo que defende pode melhorar seu argumento, refinar suas estratégias de persuasão e ter uma certeza de que logo terá uma chance de lograr êxito e ver suas ideias sendo implementadas. O desempenho dinâmico da democracia é uma das marcas mais valiosas dessa invenção. Saber utiliza-la é um desafio constante para a sua existência.

Ainda outra coisa importante: todos os que se reúnem em torno de uma cidade-estado contribuem para a sua manutenção e os destinos desses recursos são decididos por representantes escolhidos na praça. Logo, a democracia tem também um importante papel no processo de redução das diferenças entre os nobres, os comerciantes e os artesãos, na medida em que pode implementar políticas de distribuição de recursos para setores mais desfavorecidos e, ainda assim, guardar como diferenças que existem antes de sua configuração. Logo, a democracia nunca foi pensada para ser um sistema para criar uma igualdade real entre as pessoas, mas é um simulacro de igualdade que permite, provisoriamente, aos diferentes, uma instância de diálogo,Ainda outra coisa importante: todos os que se reúnem em torno de uma cidade-estado contribuem para a sua manutenção e os destinos desses recursos são decididos por representantes escolhidos na praça. Logo, a democracia tem também um importante papel no processo de redução das diferenças entre os nobres, os comerciantes e os artesãos, na medida em que pode implementar políticas de distribuição de recursos para setores mais desfavorecidos e, ainda assim, guardar como diferenças que existem antes de sua configuração. Logo, a democracia nunca foi pensada para ser um sistema para criar uma igualdade real entre as pessoas, mas é um simulacro de igualdade que permite, provisoriamente, aos diferentes, uma instância de diálogo,

E funcionou? Funciona? Pode funcionar melhor?

Não tenho dúvida que sim. Não vejo, aliás, outra invenção melhor, com exceção, talvez, da anestesia e do chocolate amargo com pistache. O que precisamos, sem dúvida, é investir nossos esforços na ideia de que a perfeição nunca foi o propósito da democracia. O sucesso da democracia está na sua dinâmica, na sua persistência em apostar no diálogo de pessoas que, em outras circunstâncias, não motivos para sequer olhar umas para as outras - e crer que acordos democráticos nunca deixam todos felizes, mas certamente evitam que se odeiem um ponto de quererem se matar.É uma estratégia de expansão social, mais do que uma utopia coletivista.É um antídoto para nossa natureza egoísta, mais do que um libelo pela fraternidade eterna.É um mecanismo de defesa da pluralidade, de paz, mesmo que não de amor. @ Profdanielmedeiros Não tenho dúvida que sim. Não vejo, aliás, outra invenção melhor, com exceção, talvez, da anestesia e do chocolate amargo com pistache. O que precisamos, sem dúvida, é investir nossos esforços na ideia de que a perfeição nunca foi o propósito da democracia.O sucesso da democracia está na sua dinâmica, na sua persistência em apostar no diálogo de pessoas que, em outras circunstâncias, não motivos para sequer olhar umas para as outras - e crer que acordos democráticos nunca deixam todos felizes, mas certamente evitam que se odeiem um ponto de quererem se matar.É uma estratégia de expansão social, mais do que uma utopia coletivista. É um antídoto para nossa natureza egoísta, mais do que um libelo pela fraternidade eterna.É um mecanismo de defesa da pluralidade, de paz, mesmo que não de amor. @ Profdanielmedeiros Não tenho dúvida que sim. 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É uma estratégia de expansão social, mais do que uma utopia coletivista.É um antídoto para nossa natureza egoísta, mais do que um libelo pela fraternidade eterna.É um mecanismo de defesa da pluralidade, de paz, mesmo que não de amor.

* Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo. @profdanielmedeiros